Livro trata da oposição entre quadrinhos impressos e na web


A discussão sobre a publicação de histórias em quadrinhos na Internet vem ganhando novos contornos. Após o obrigatório HQTrônicas: do Suporte Papel à Rede Internet, de Edgar Silveira Franco, temos agora o livro História em Quadrinhos - impresso vs. web, de Anselmo Gimenez Mendo, lançado pela Editora Unesp.

A meta de Anselmo é discutir as formas de adaptação dos quadrinhos para a Internet. Para isso, nos dois primeiros capítulos, disserta sobre a história das HQs e sobre as características que definem uma HQ impressa (seqüencialidade das páginas, regularidade na apresentação dos personagens, balões, onomatopéias, formato da página etc.).

No terceiro capítulo, o foco passa a ser os diversos modos de se fazer quadrinhos na Internet, desde os formatos em ".pdf" (para o leitor imprimir em casa) até os que se utilizam de recursos das mídias digitais (navegação através de links, sons, animações etc.). A partir desses modos (que poderíamos chamar de "modelos"), o autor propõe uma tabela que mostra, em uma escala, os cinco níveis de possibilidades dos quadrinhos na Internet.

No último capítulo, Anselmo aproxima os quadrinhos de outras linguagens que afetam os (e/ou podem ser afetadas pelos) quadrinhos, como os videogames e os desenhos animados. A grande questão (e que me incomoda particularmente) é: até que ponto podemos falar de quadrinhos na Internet? Ou melhor: a partir de que ponto estamos diante de uma outra modalidade de se narrar pictoricamente e que não seja mais chamado de quadrinhos? Essa é uma questão ainda sem uma resposta definitiva, ao nosso ver.

Correndo o risco de sermos superficiais (afinal, estamos num blog, não num debate acadêmico), vamos dizer: o uso de alguns recursos multimidiáticos digitais acaba, ao que parece, aproximando os "quadrinhos eletrônicos" dos videogames e dos desenhos animados, ao mesmo tempo em que os afasta dos quadrinhos. O aspecto do suporte (ou meio) é importante para definirmos alguns problemas.

Darei dois exemplos rápidos. Um deles é o filme La Jetée (1962, e que foi a base para Os 12 Macacos, de Terry Gilliam), do cineasta francês Chris Marker. Esse curta-metragem (cerca de 28 minutos) praticamente não usa imagens em movimento, apenas fotografias que se seguem, uma após a outra, acompanhadas de sons. Em tese, não há "filme", apenas fotos seqüenciadas (na verdade, o princípio básico do cinema de boa parte do século XX), mas todos chamam La Jetée de "filme".

Outro exemplo: muitos lembram dos desenhos ditos "desanimados" da Marvel que foram exibidos na TV americana nos anos 60 (anos 70, no Brasil). Na verdade, esses desenhos animados" eram feitos com os desenhos originais usados nas revistas. Até onde me lembre, Jack Kirby nunca constou, por esses trabalhos, na história da animação, mas todo mundo chamava aquilo de "desenho animado".

Assim, a oposição proposta por Anselmo Mendo já no subtítulo da obra me parece suspeita. Não vejo oposição, mas sim diferenciação entre impresso e web, assim como já havia entre meio impresso e meio eletrônico - um livro narrado, como os audiobooks, ainda é um livro?

O livro de Anselmo tem seus méritos: o problema é tratar, em geral, de quadrinhos apenas nos limites do próprio universo dos quadrinhos, e não em contato com as outras linguagens. A bibliografia nacional de quadrinhos espera mais títulos relevantes, que se juntem aos trabalhos de Moacy Cirne e Valdomiro Vergueiro.

Ricardo Jorge

4 comentários:

Fabianny disse...

Deu vontade de ler :}

Minpresta?

Leitor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Lima disse...

Concordo, Ricardo Jorge. Da mesma forma que o Rádio na TV não é mais Rádio e que o Livro gravado em Cassete não é mais Livro, as Histórias em Quadrinhos, na Web, não são mais Histórias em Quadrinhos, mas um recurso visual eletrônico, às vezes com áudio, às vezes com interatividade, às vezes com animação, que perde algumas características dos quadrinhos e subutiliza alguns recursos do ciberespaço...

Anselmo disse...

Olá Ricardo Jorge,
Quem escreve aqui é Anselmo Gimenez Mendo. Fiquei bastante satisfeito em encontrar na web a análise feita por você sobre o livro, como também o interesse da UFC pelo tema. Você tem razão quando diz que trato de quadrinhos até o limite da mídia. A proposta era essa mesma, perceber a HQ na forma mínima em que pudesse ser identificada fora do suporte papel, em especial na internet. Como toda pesquisa, trata-se de um recorte temporal. O meio eletrônico muda a cada dia e não param de surgir novas experiências. Me interessa bastante hoje em dia as criações de HQ para dispositivos móveis.
Parabéns pelo BLOG e pelo projeto da Oficina.
Grande abraço,
Anselmo Gimenez Mendo
anselmo@nez.com.br

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